Saltar os Menus

Notícias

18 de Junho de 2020

“Jogo de espelhos: a cidade fragmentada e a fotografia fragmento através da C.N.F.”

Entrada gratuita –

© Paulo Catrica; XIX Matosinhos – Da Rua 1.º de Maio para a Rua de Goa; Matosinhos, 18 de abril de 1998; Colecção Nacional de Fotografia, PT/CPF/CNF/000328

© Paulo Catrica
XIX Matosinhos – Da Rua 1.º de Maio para a Rua de Goa
Matosinhos, 18 de abril de 1998
Colecção Nacional de Fotografia, PT/CPF/CNF/000328

 

Muitas das imagens pioneiras da Fotografia são paisagens urbanas. E, se bem que a conceção no século XIX se baseasse na crença do papel da câmara como neutra, imitar a realidade, a ideia de cidade dos fotógrafos resulta sempre ficcional. E, naturalmente, a ideia, como a mundividência da cidade evolui em função de diversas teorizações, incluindo a do papel e capacidades da câmara fotográfica, do olhar realista ou subjetivo conotado com as filosofias e as artes plásticas.

Com o tempo tornou-se clara uma constatação: ainda antes do espaço e do tempo ser encurtado e tornado instantâneo pela comunicação eletrónica, fragmentando o nosso olhar e o nosso conhecimento, já esse olhar fracionado dominava a cultura, multiplicando o estudo dos objetos e temas parciais e abandonando os velhos sistemas e as grandes narrativas, tal como será assumido pelo pós-moderno.

Uma das respostas que se oferecem para esse estilhaçamento, que vemos nas cidades contemporâneas, cortadas, fendidas e desintegradas pelas camadas sociais, pelas feridas do velho e do novo, do pacífico e do agressivo, pela riqueza e pelo abandono, pelo lixo e pela beleza, foi anunciado e aprendizado através da fotografia, que se tornou fundamental na sociedade em todos os campos, pois a fotografia tem por vocação ser plural. Está na ciência, na arte, na publicidade e na propaganda, no design ou nas fake news. Domina na Net e nas redes sociais, renova o seu armazenamento de milhões de selfies diariamente.

No sentido de mostrar  como desde sempre as imagens da cidade e dos lugares são ficcionadas selecionou-se na Coleção Nacional de Fotografia alguns dos mais famosos representantes da ideia de cidade que, obviamente são imagens cortadas da realidade, pois a câmara, ao contrário da imagem pictórica ou de desenho, só permite o corte parcial do que se olha, a composição identifica-se com o cut,  será um dado subjetivo. Já são ficcionais as imagens de Ternante que escolhe, de acordo com a ideia de cidade do seu tempo, herdado das Missões Fotográficas, o relevo do património e da sua história. A cidade ribeirinha, modelo imaginário de cidades onde a água é o limite e a simbolização, liga-se aos Descobrimentos e o Terreiro do Paço com o Cais da Colunas será o motivo principal. Mas Ternante introduz um elemento que é do seu imaginário, o desleixo dos equipamentos da envolvente desse património. Deliberadamente ficcionados são os lugares construídos pelo Pictorialismo. Aqui, uma imagem de Emerson, que ajuda a criar esta primeira teoria da Fotografia artística e outra de um outro amador, menos ortodoxo, pois já influenciado pelo Modernismo, que definirá o objeto fotográfico e utiliza recursos do cinema, (picado, contrapicado, linhas oblíquas, simulação de multidões) ou imagens de Deus, que parecem tiradas de cima.

O Modernismo, apropriado para a sua propaganda pelos estados totalitários, irá influenciar, a par do Humanismo, e até hoje, o Fotojornalismo. Nos Estados Unidos, o maior representante do Pitorialismo, Stieglitz, impedirá até 1917 a sua propagação nesse país, apoiando a fotografia direta e realista que irá modelar em grande parte a fotografia americana, se bem que ele lesse as suas próprias imagens como simbolistas. Essa fotografia direta e de rua, está aqui perfeitamente representada pela foto de Weegee, mas outras territorialidades sociais são pesquisadas por Peter Sekaer e Neal Savin, que nos anos 80, ficciona a cidade como perigoso deserto. Alguns fotógrafos independentes do Salonismo, (que prolonga o Pictorialismo em temas e apuro técnico) usam recursos modernistas como Carlos Calvet ou Carlos Afonso Dias, aqui com influência da foto direta americana, caraterística da sociedade do consumo. A alienação da sociedade de massas impregna a foto de David Hockney.

Nos anos 50, no continente europeu é o tempo de Henri Cartier-Bresson, da Agência Magnum de que é cofundador e de uma nova forma de olhar para a arte em fotografia, o momento decisivo. Na realidade saíra do Humanismo Fotográfico que entre as duas guerras e no após-guerra criara uma fotografia simpática e ternurenta que elevava os bons sentimentos humanos. Essa fotografia à Izis ou Doisneau que se manterá em muitos nichos fotográficos como o fotojornalismo e entrará também no Salonismo prolonga-se no momento decisivo de que é exemplo máximo esta foto de Bresson, na traseira da Gare Saint-Lazare. Deliberadamente bressoniano foi também Gérard Castello Lopes e é com o espírito da Magnum que surgem estas imagens da “Revolução dos Cravos”, de Sebastião Salgado e Guy Le Querrec.

A crítica involuntária do momento decisivo é feita por Robert Frank, o suíço que fotografa em Londres e segue para os Estados Unidos para produzir os “Americanos” que os Estados Unidos não querem publicar. Não é apenas um novo olhar, é uma nova teoria sobre fotográfica: o rápido e brutal disparo da câmara tem a ver com a crueza do real, a sua dimensão desorganizada e enigmática. O uso do fora de campo, o corte desabrido do plano, repetem a indeterminação dos espaços urbanos, o descentramento da realidade social e recusam equivalências artísticas. A cidade, como a realidade é um local de tensão e conflito. A imagem fotográfica é enigmática e impossível de descodificar de modo unânime, pois nada diz. Os fotógrafos procuram, então, os enigmas urbanos, como Plossu, que reflete sempre a sua cidade, que lembra como pacífica mas com frechas de enigma. Ou Gabriele Basilico que evoca nos armazéns à beira rio, as cidades destruídas que fotografou no Líbano ou, na Faculdade de Siza Vieira, a misteriosa funcionalidade da luz dos equipamentos do saber. As imagens-símbolo da vida urbana, seja nos interiores ou na organização parcial, (Fadón, Pedro Letria, Augusto Alves da Silva) ou um olhar crítico sobre o centro cívico: no Porto, a grandeza contrariada pela fila de trabalhadores que, em primeiro plano, esperam o autocarro (Hans van der Meer).

O Conceptualismo ou o Pós-Moderno, (as imagens planas e datadas de Paulo Catrica, induzindo as periferias não provocam emoção), ao contrário da obra de António Júlio Duarte que sabe que o cognitivo está firmemente unido à emotividade. Assim as suas imagens urbanas são o contexto das gentes e do insólito na sua instantaneidade e rituais, perdidos e fracionados como a cidade e é com estes fragmentos que olhamos a cidade e, com eles, recuperamos a totalidade que desejamos, fazendo, afinal as duvidosas equivalências que Frank lhe quis retirar.

Por isso mesmo a imagem de André Príncipe pode induzir-nos tanto um grito como um hino à vida, na violência urbana em explosão: uma metáfora da cidade em pedaços numa imagem fixa e quebrada e sempre pretérita.

 

Maria do Carmo Serén

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Inauguração em 25 de junho – patente até 13 de setembro

Esta notícia foi publicada em 18 de Junho de 2020 e foi arquivada em: Destaques, Exposições Temporárias.