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ESTA MÁQUINA, ESTA OBJETIVA, ESTAS FOTOGRAFIAS: 25 de abril 1974, quinta-feira

06.04 – 28.07.2024

©Alfredo Cunha (fotografia), Alexandre Farto/Vhils (gravura)

No âmbito da comemoração dos 50 anos do 25 de abril, o CPF apresenta a exposição “ESTA MÁQUINA, ESTA OBJETIVA, ESTAS FOTOGRAFIAS: 25 de abril 1974, quinta-feira” com fotografias de Alfredo Cunha e gravuras de Alexandre Farto /Vhils.

” A professora mandou‑nos calar e estava a tentar sintonizar o rádio. A determinada altura recambiou‑nos a todos para casa. É tudo o que me lembro desse dia. Tinha 6 anos, estava na 1.ª classe, e pertenço à geração que, nas décadas seguintes, foi acusada de ter perdido o 25 de Abril. Só lá para as eleições de 1980, com uns sólidos 12 anos, é que estava politizado o suficiente para entrar na luta partidária, como era costume na época. Tinha perdido a festa. Mas então o que estou a fazer neste projeto? É que tenho vários 25 de Abril. Este é o meu favorito: estou na Amadora, são 3 e tal da manhã e ouço pela primeira vez na vida o «Riders in the Storm», dos Doors. 

Lá para as 4 e tal começam a dizer que algo se está a passar em Lisboa. Visto‑me e decido ir para o Século. Vou para a estação. Passo pelo bairro de lata da Falageira, uma das vistas mais miseráveis dos subúrbios de Lisboa e que tenho fotografado nos últimos anos. Chegado à estação do Rossio, corro até ao Bairro Alto, à redação do Século, e saco o maior número de rolos possível. Uns 40. São umas 6 da manhã. Está lá o Mário Zambujal, que destaca o jornalista Mário Contumélias e a mim para seguirmos para o Terreiro do Paço. Só lá para as 9 e tal é que tenho a primeira conversa com o Salgueiro Maia. Vê‑me fotografar e pergunta‑me o que estou ali a fazer. Digo que sou do Século. Pergunta‑me se sou dos deste lado ou dos outros. Não sei bem o que dizer e respondo que estou ali daquele lado a fotografar. Então ele diz‑me para passar a barreira e não ficar escondido. Este dia 25 de Abril não me pertence. É o 25 de Abril do Alfredo Cunha, então com 20 anos e que logo no início da carreira tem inesperadamente o dia mais importante da sua vida de fotógrafo. Uma dádiva e uma maldição. Há 50 anos que incansavelmente fotografa, expõe e publica como que para fugir e de novo voltar a esse dia.

Esse 25 de Abril que não é meu e que relato na primeira pessoa foi surgindo como peças de um puzzle ao longo das centenas de horas que passámos nas viagens de trabalho em conjunto. Uma história que surgia após um silêncio de quilómetros numa picada. Episódios de que ele próprio não se lembrava e de repente lhe ocorriam. Um dia percebi que o meu dia 25 de Abril já era o dele.

Atualmente, quando trabalho com o Alfredo, ele tira umas duas mil fotos em dez horas de trabalho. Naquele dia, foi gerindo os 40 rolos. Não sabemos se, caso tivesse tirado mais uns milhares de fotos, o seu dia 25 de Abril fotográfico seria mais ou menos intenso em termos imagéticos do que aquele que ficou. Se seria mais ou menos belo e perturbador, mesmo nas suas imperfeições — dada a necessidade de recuperar fotos tremidas, desfocadas, um pouco desenquadradas, que expõem a incerteza do momento. Havia a decisão de captar o momento, o que obrigava a puxar manualmente o rolo e perder complemente a situação. E não ceder à tentação de encenar a foto perfeita.

Cinquenta anos depois, Vhils é convidado a selar este projeto, como se se tratasse de uma cápsula feita para enviar para o futuro, para ser vivido, dado ter sido fotografado por quem vive apaixonadamente uma revolução.

Deixe‑se levar para aquele dia em que 240 homens (muitos deles meros rapazes), vindos de Santarém, libertaram um país inteiro da mesquinhez instituída, de um poder autocrático e beato que sobrevivia da ignorância dos pobres que controlava. Quando der por isso, estará a ver como a coragem de um só homem perante carros de combate tocou de tal forma os que o estavam a ver do outro lado, que decidiram arriscar tudo e negar‑se a disparar. E assim, sem o saber, derrubaram naquele momento o regime. Foi o cair de uma mordaça pestilenta que sufocava. E o dar um fôlego de quem quer comer o mundo ao encher os pulmões de liberdade fresca e matinal. E gritar.

A próxima revolução pela liberdade não será tão simples e feliz.”

Texto adaptado do original da autoria de Luís Pedro Nunes


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