LUZ COADA POR FERROS | O desenho e a palavra, a sombra como lembrança. Diálogo entre o desenho e a fotografia, entre a luz e a sombra
18.04 – 21.06.2026

O desenho e a palavra, a sombra como lembrança. Diálogo entre o desenho e a fotografia, entre a luz e a sombra.
Neste lugar onde as paredes guardam silêncios de séculos, a palavra tornou-se resistência. A antiga Cadeia da Relação do Porto não foi apenas espaço de clausura física — foi também território de criação, reflexão e memória.
Foi aqui que Camilo Castelo Branco e Ana Plácido conheceram o peso do julgamento público e a solidão das grades, mas também aqui transformaram a experiência da reclusão em literatura.
Em Memórias do Cárcere, Camilo recria o quotidiano prisional com ironia, lucidez e humanidade. Entre descrições vivas e observações mordazes, revela-se não apenas o escritor brilhante, mas o homem confrontado com a fragilidade da condição humana. O cárcere surge como microcosmo da sociedade oitocentista, expondo desigualdades, vícios e afetos inesperados.
Já em Luz coada por ferros, Ana Plácido escreve a partir de uma vivência simultaneamente íntima e combativa. A sua voz ergue-se firme, atravessando as grades que filtravam a luz — metáfora poderosa de uma liberdade interior que nenhuma prisão poderia extinguir. Na sua escrita, encontramos sensibilidade, dignidade e uma consciência clara da injustiça e da condição feminina no seu tempo.
Os trabalhos aqui apresentados pelos alunos dialogam com essas obras e com este espaço. Ao revisitarem os textos nascidos entre estas paredes, os jovens autores não apenas interpretam o passado — reativam-no. Através das suas leituras, ilustrações e recriações, demonstram que a literatura permanece viva quando encontra novos olhares.
O desenho permitiu interpretar estes ecos de quem passou pela cadeia, as desigualdades e os seus lamentos, a prisão estratificada e o Porto de hoje.
Os alunos realizaram explorações com técnicas mistas, a partir da fotografia e o desenho, valorizando conceitos e emoções pessoais que retiraram deste universo.
Esta exposição convida-nos, assim, a refletir sobre a força transformadora da palavra, mas também dos espaços e dos silêncios, só possíveis hoje a quem visita a antiga cadeia.
Entre grades e páginas, entre memória e presente, ecoa a certeza de que a criação literária pode nascer mesmo nos contextos mais adversos — e que a liberdade, tantas vezes, começa na escrita.As imagens surgem nessa condensação.
Entrada gratuita.